É uma contradição: ao mesmo tempo em que a disrupção tecnológica cria ameaças inéditas para instituições financeiras de todos os portes, o mesmo avanço digital poderá simplificar a análise de riscos e prever cenários futuros com grau elevado de acerto, de forma a tornar a gestão de riscos em bancos mais segura e econômica. É o que afirma Scott Vincent, CEO da Parker Fitzgerald, consultoria inglesa especialista em gestão de riscos para bancos, criada no ápice da crise financeira global, no final de 2008.

Para Vincent, o setor financeiro vive ainda sua infância na revolução digital que, em áreas como as de notícias, entretenimento e viagens, destruiu indústrias inteiras. “Fenômenos como Netflix, iTunes e Expedia, por exemplo, forçaram os players tradicionais destes segmentos a se reinventar radicalmente e, mesmo assim, o fizeram para se posicionar em um novo patamar, de lucratividade bem mais modesta”, diz o CEO da Parker Fitzgerald.

Contradição: para Scott Vincent, CEO da Parker Fitzgerald, a tecnologia aumenta e diminui exposição dos bancos a riscos

Além do surgimento de novas empresas competindo no setor financeiro, como as fintechs, a tecnologia digital incluiu na pauta do dia dos bancos a necessidade de responder a críticas ácidas nas redes sociais, comentários em blogs e um inédito poder atribuído ao consumidor, capaz de compartilhar uma reclamação com milhares de contatos digitais ou mudar de provedor de serviços financeiros com poucos toques na tela do celular.

O cenário de tempestade perfeita se desenha quando, sobre a conta dos desafios, somam-se as complexas respostas dos bancos centrais de todo mundo, alterando regulações em ritmo inédito, em seguidas tentativas de evitar uma nova crise de seus sistemas econômicos, como a registrada em setembro de 2008. Um estudo apresentado pela IBM, por exemplo, indica que todos os anos mais de 20 mil novas regulações no setor financeiro são publicadas no mundo, o que dá uma média de 83 novas regras e circulares por dia, que precisam ser analisadas e aplicadas. A mesma análise afirma que um grande banco emprega em torno de 21 mil funcionários para interpretar e cumprir exigências de compliance e, mesmo assim, a cada ano, mais de US$ 70 bilhões são pagos em multas por instituições financeiras por erros e tropeços no cumprimento destas regras.

Michael Haupt, da IBM, afirma que o sistema de computação cognitiva vai reduzir drasticamente o tempo que um banco leva para perceber o surgimento de um novo risco regulatório

“Os custos crescentes com compliance estão esmagando a capacidade de inovar dos grandes bancos”, afirma Michael Haupt, consultor para governança da IBM. “Estes departamentos consomem recursos que deveriam ser aplicados em pesquisa e desenvolvimento, sobretudo quando surgem centenas de startups todos os anos, propondo solucionar questões que os bancos não viram a tempo.”

Um relatório do Crunchbase, base de dados do serviço global Techcrunch, de informação sobre inovação digital, indica, por exemplo, que a cada ano surgem 1.800 novas fintechs em todo mundo, cada uma planejando morder uma parte do faturamento dos bancos.

Mão dupla

A boa notícia é que a tecnologia não joga apenas contra as instituições financeiras, mas pode ser apropriada em seu favor. Exemplo disso são as ferramentas de computação cognitiva, que permitem às máquinas ler, interpretar e gerar alertas de forma mais eficiente que a análise de documentos feita por especialistas humanos, ainda que a decisão final sobre como superar cada desafio caiba a um executivo de carne, osso, terno e gravata.

O sistema de computação cognitiva Watson, desenvolvido pela IBM, por exemplo, é capaz de ler e interpretar todas as regulações bancárias publicadas no mundo, em dezenas de idiomas, e gerar alertas e relatórios indicando como aquela determinada decisão impactará a gestão de riscos de uma instituição financeira específica.

Este recurso, aliás, ainda é pouco utilizado em bancos se compararmos, por exemplo, com seu uso em áreas médicas ou de varejo. Nestes dois setores, por exemplo, ferramentas cognitivas já são utilizadas para recomendar os melhores tipos de tratamento contra câncer ou para descobrir quais produtos terão mais apelo de vendas em uma determinada vitrine.

Anderson Vieira, da IBM, diz que soluções cognitivas são capazes de interpretar as emoções de um comentário postado na fanpage de um banco no Facebook ou gerar análises preditivas

“O uso de serviços como Watson vai reduzir drasticamente o tempo que um banco leva para perceber o surgimento de um novo risco regulatório, reduzirá a incidência de multas e vai liberar recursos para a instituição investir em inovação, tornando-a mais eficiente para competir com novos entrantes”, afirma Haupt.

Este mesmo recurso pode ser utilizado para avaliar, por exemplo, as repercussões de um anúncio feito aos clientes, à imprensa ou mesmo prever a reação de acionistas a um determinado comunicado. De acordo com Anderson Vieira, superintendente de risco reputacional da IBM, soluções cognitivas são capazes de interpretar as emoções de um comentário postado na fanpage de um banco no Facebook ou gerar análises preditivas (quando se prevê a reação de uma pessoa) ao ler determinado anúncio ou comunicado.

“Nós sabemos que reputação é a percepção que um terceiro tem de nós e de nossas empresas. Por tanto, estas ferramentas são capazes de analisar, a partir de um texto que escrevemos, como a média das pessoas reagirá em termos de sentimento em relação a nós, permitindo uma gestão mais previsível de nossa reputação”, afirma Vieira.

Para Marcelo Golovaty, do Santander, instituições do mundo todo estão atentas ao potencial da computação cognitiva e os bancos devem liderar sua adoção no médio prazo

De acordo com Marcelo Golovaty, superintendente de riscos do Santander, instituições do mundo todo estão atentas ao potencial da computação cognitiva e os bancos devem liderar sua adoção no médio prazo, na medida em que elas se demonstrem efetivas para a redução de riscos e mais vantajosas financeiramente. Golovaty afirma, ainda, que o surgimento de centenas de startups no Brasil é, antes de mais nada, uma oportunidade de mercado, já que todas elas precisarão de serviços financeiros.

“Empresas iniciantes, com soluções escaláveis, podem se tornar grandes clientes no médio prazo, e isso é muito positivo para os bancos”, afirma o executivo do Santander. Uma das alternativas para os bancos se manterem na ponta do desenvolvimento de novas tecnologias é usar sua força financeira e institucional para apoiar o surgimento de novas startups, assegurando prioridade na adoção de soluções por elas criadas. Uma das formas de realizar esta tarefa é a criação de aceleradoras, em que se oferece mentoria, rede de contatos e espaço físico para o trabalho de empresas iniciantes em troca de um percentual acionário e a preferência no uso de soluções inovadoras.

A aceleradora Cubo, por exemplo, criada pelo Itaú, apoia projetos iniciantes em diferentes áreas nos mesmos modelos de entidades similares em todo o mundo, porém com o diferencial de manter projetos de interesse do banco em seu radar. De acordo com Ricardo Guerra, diretor executivo de TI do Itaú, a experiência já rendeu a adoção de três soluções financeiras criadas por startups dentro da rede de serviços do banco. Um dos exemplos é a Fhinck, empresa que utiliza inteligência artificial para monitorar o cumprimento, por parte dos colaboradores dos bancos, de processos de controle e auditoria, evitando que um determinado funcionário feche um contrato sem cumprir alguma etapa específica. No Itaú, esta tecnologia está sendo usada para automação no backoffice.

Um estudo, publicado pela revista Forbes em novembro deste ano, indica que o apoio de instituições financeiras às fintechs cresceu exponencialmente nos Estados Unidos, país onde foi conduzida a pesquisa, ao longo dos últimos 6 anos. Em 2010, por exemplo, bancos americanos aplicaram US$ 1,8 bilhão em empresas do tipo, volume que saltou para US$ 5,2 bilhões apenas no primeiro trimestre de 2016.

Destes investimentos, ao menos duas empresas iniciantes emergiram com soluções para redução da gestão de riscos. A Robo Advisors, por exemplo, usa algoritmos de análise de investimentos de correntistas para avaliar, ao longo de uma linha do tempo, quando eles fizeram bons ou maus negócios. Com esses dados, e gera relatórios indicando ajustes no perfil de investimentos de cada cliente, ajudando-os a reduzir perdas mais comuns e maximizar seus ganhos. Já a Smart Contracts criou um sistema de validação de contratos que permite aos bancos checar, via software, se alguma cláusula lhes é potencialmente lesiva, tanto do ponto de vista da regulação governamental quanto das políticas de governança internas, evitando deslizes cometidos por desatenção do departamento jurídico.

Essas novas ferramentas digitais estão criando formas de as instituições financeiras gerirem seus riscos com mais previsibilidade e segurança e aumentam as chances de tomar decisões certas em situações difíceis. Gerir riscos de forma eficiente nunca foi uma conquista tão distante de ser alcançada como agora e, ao mesmo tempo, nunca foi uma tarefa apoiada por tantas ferramentas.