O potencial do blockchain e a rapidez com que testes estão sendo desenvolvidos mundo afora colocam essa tecnologia disruptiva entre as prioridades do CIAB FEBRABAN 2017. Nesta edição do congresso de TI para o setor financeiro serão realizados pelo menos seis painéis voltados ao tema, ante três feitos no ano passado, com apresentação de cases do Brasil e do exterior. Em dois deles serão demonstradas provas de conceito (PoC), simulações do uso do blockchain, desenvolvidos pelo grupo de trabalho Blockchain FEBRABAN, que já começa a preparar um projeto-piloto com base na tecnologia.

O blockchain ou DLT (sigla em inglês para livro-razão distribuído) é uma inovação em tecnologia da informação que permite criar registros encadeados e dependentes entre si, sem controle centralizado; essa capacidade permitirá a criação de produtos e serviços disruptivos e a realização de operações mais eficientes e seguras no sistema financeiro. Além disso, a capacidade de compartilhamento oferecida pela nova tecnologia favorece ações colaborativas, em lugar das individuais.

Para estudar o tema, a FEBRABAN criou o Grupo de Trabalho Blockchain em agosto do ano passado, composto pelos membros da Comissão Executiva de Tecnologia e Automação Bancária (CNAB): Banco do Brasil, Bancoob, Banrisul, Bradesco, BTG Pactual, Caixa, Citibank, Itaú Unibanco, JP Morgan, Safra e Santander, além do Banco Central, da CIP e da B3, nova empresa decorrente da fusão da BM&FBOVESPA e Cetip.

De lá para cá, além de estimular iniciativas individuais, o grupo desenvolveu duas provas de conceito para testar diferentes plataformas com base em um produto fictício - um cadastro de cliente com capacidade de compartilhamento entre diferentes instituições e atualização em tempo real. “A intenção foi testar até que ponto as plataformas suportam um produto disruptivo no mercado”, afirma Adilson Fernandes da Conceição, coordenador do GT Blockchain.

Provas de conceito confirmam características

A primeira prova de conceito, intitulada Fingerprint, usou a plataforma Corda, usada pelo consórcio mundial R3, e envolveu Itaú, Bradesco e B3, instituições brasileiras participantes do grupo. O teste desenvolvido no laboratório em nuvem do R3 criou um cadastro com informações fictícias, como nome, CPF e RG, idade, endereço e telefone, com armazenamento de documentos. O resultado comprovou a capacidade de os bancos operarem em regime colaborativo, com garantia de imutabilidade dos dados compartilhados, preservação da privacidade e rastreabilidade das informações.

A segunda (DNA) foi desenvolvida em Hyperledger, apoiada pela IBM, desta vez com a participação de todas as instituições do Grupo de Trabalho da FEBRABAN. Os testes permitiram avaliar a capacidade atual das plataformas, as diferenças entre elas e aspectos relacionados ao desenvolvimento. A próxima etapa é a realização de um projeto-piloto, que está em fase de criação e será iniciado logo após a conclusão da DNA.

Os testes garantem o aprendizado graças ao caráter evolutivo das plataformas, com correção de problemas identificados a cada versão. “A maturidade está se aproximando”, diz Keiji Sakai, vice-coordenador do GT Blockchain da FEBRABAN e coordenador de conteúdo do Ciab.

A programação do evento inclui, além das demonstrações do grupo, apresentação de testes de instituições como Banco Votorantim, Banco Central e CIP, com a plataforma Ethereum, apoiada pela Microsoft. Também serão detalhadas iniciativas desenvolvidas pelo Banco do Brasil e por organizações globais, como UBS e Santander.

Potencial da tecnologia

O uso do blockchain, ou DLT, no segmento financeiro ainda tem pela frente desafios como a necessidade de aumentar a escala de aplicação, a baixa velocidade de transporte do alto volume de dados transacionados e as exigências de maior agilidade do setor, motivos que fizeram a CIP desistir do uso da tecnologia em um projeto de centralização de boletos em plataforma única.

O volume de 3,5 bilhões de boletos anuais, ou 3 mil transações por segundo com crescimento anual em torno de 10%, forçou a opção por um modelo centralizado tradicional.

Agora está sendo desenvolvido um protótipo para boletos de oferta, enviados sem contratação de dívida. A meta é comprovar se a tecnologia sustenta uma solução economicamente viável para permitir que a mera aceitação do destinatário sirva de comprovação de que o processo inicial de envio, previsto pela regulamentação, foi cumprido. “O regulamento foi publicado há quase três anos, mas é difícil de atender na prática”, disse Joaquim Kiyoshi Kavakama, superintendente-geral da CIP, durante o 1º FEBRABAN Blockchain, seminário realizado recentemente pela entidade para debater a tecnologia.

O protótipo criado pelo Banco Central na plataforma Ethereum envolveu um terceiro mecanismo de contingência para apoiar o Sistema de Transferência de Reservas (STR), um dos componentes do Sistema de Pagamentos Brasileiro (SPB). A solução entraria em cena em caso de falha completa de dois sites hoje existentes. “As regionais poderiam funcionar por sistema alternativo de transferência usando a tecnologia DLT”, explicou Aristides Cavalcante, chefe-adjunto do Departamento de Tecnologia da Informação do Banco Central do Brasil.

O Bradesco avalia plataformas em processos de back office e soluções de startups do programa InovaBRA. Uma das provas de conceito está relacionada a garantias em operações financeiras, como a criação de uma aplicação para comunicar a todos integrantes da cadeia - outros bancos, por exemplo - que um determinado bem já foi oferecido como garantia em outra operação. “O blockchain permite automatizar e distribuir instantaneamente a informação”, afirmou Antranik Haroutiounian, diretor do departamento de Pesquisa e Inovação do Bradesco. “É uma tecnologia de colaboração, não de concorrência.”

Integrantes do grupo de trabalho Blockchain FEBRABAN mostram o projeto Fingerprint durante evento da entidade

Entre as startups, uma das mais avançadas é a e-Wally, carteira digital em teste na comunidade de Paraisópolis, na capital paulista. A solução viabiliza operações sem custo, como depósito, transferência e pagamento de contas, e permite a qualquer usuário assumir papel de ATM, ganhando taxa por transação, de acordo com o site da startup. Todas as transações são criptografadas com blockchain e permitem tratamento e auditoria em plataforma distribuída.

Para Igor Freitas, superintendente de Arquitetura Enterprise do Itaú Unibanco, as primeiras soluções devem envolver processos manuais e menos regulados. Além do cadastro de pessoa física, ele indica o uso da tecnologia para a área de veículos, onde processos para compra e venda envolvem grande número de ações manuais e deslocamentos.

Para Gustavo Fosse, diretor setorial de Tecnologia e Automação Bancária da FEBRABAN, as possibilidades de melhoria da experiência do cliente pode até estimular a revisão da legislação, a exemplo da validação da documentação digital. “A legislação evolui com a tecnologia.”